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A "polifonia" que os cetáceos trazem aos Açores

Sexta-Feira, dia 25 de Março de 2011

Emitem sons que lembram trombones ou cornetas. Outros assemelham-se ao coaxo das rãs ou ao mugido das vacas. Alguns "nem parecem feitos por criaturas" ou até mesmo "não se parecem com nada". A observação é de Mónica Silva e Irma Cascão, que há mais de dois anos fazem investigação sobre a ecologia dos cetáceos dos Açores e, segundo as quais, "as pessoas não fazem ideia da diversidade de sons que existem debaixo de água". 
Na verdade, a análise destes sons, por vezes "muito estranhos",  faz parte das ferramentas que as duas investigadoras do Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP) da Universidade dos Açores (UAç) tem utilizado para perceber as movimentações das baleias e golfinhos dos Açores, a presença destes animais no arquipélago e aquilo que os atrai para lá. 
"Queremos perceber a importância dos Açores para o ciclo de vida de uma série de espécies que são protegidas e que estão ameaçadas e identificar áreas prioritárias para a conservação destas populações, para que tenhamos garantias de que no futuro vão ser preservadas", explicou ao Ciência Hoje Mónica Silva, que se rendeu ao Faial há mais de uma década. 

Neste arquipélago português, com uma "diversidade invulgar" de cetáceos, já foi confirmada a presença de 28 espécies, 20 das quais ocorrem regularmente. Como tal, os Açores tornam-se num local privilegiado para o estudo destes animais marinhos que interpretam o seu meio ambiente e comunicam entre si através da audição e dos sons que emitem. 

De acordo com Mónica Silva, o "som e a sua capacidade auditiva para eles funciona como a visão para nós", pois ajuda-os a discernir tudo aquilo que os envolve, desde o que é alimento ao que pode ser ameaça ou barreira. Desta forma, tudo o que interfira com estes dois factores, como o ruído introduzido pela acção humana,  pode constituir um risco para a sua sobrevivência. "Interfere com a capacidade de comunicarem, de navegação e de perceberem onde estão os obstáculos e pode mesmo causar-lhes lesões físicas ou até a morte", destacou. 
"Juntar as peças do puzzle"
Através de técnicas acústicas, juntamente com outras metodologias, as investigadoras  pretendem "juntar as várias peças do puzzle" para perceber o comportamento dos animais e as variações ao longo do tempo e espaço da sua distribuição. Para além das observações visuais, os hidrofones (que gravam todo o tipo de sons que se produzem debaixo de água num determinado raio de alcance)  permitem perceber a localização dos animais e se estão associados a determinadas zonas específicas.

O navio do DOP - o Arquipélago - também dispõe de uma eco-sonda que regista a densidade relativa das presas através do eco que emitem. A telemetria acústica é aliada nestes estudos para se compreender, por exemplo, os factores que justificam a presença dos golfinhos em determinados locais durante alguns meses do ano. 
Segundo Irma Cascão, da análise que já fizeram dos dados, verificaram que "a maioria das vocalizações destes animais é registada à noite", o que coincide com a altura em que as pressa estão à superfície. A investigadora acredita que neste facto pode denotar-se uma "uma adaptação comportamental dos golfinhos, que, em vez de se alimentarem durante o dia e mergulharem profundamente até encontrarem alimento, esperam que este suba até à superfície para aí iniciarem o seu comportamento alimentar. Assim não se cansam tanto e não dispendem de tanta energia"

A telemetria por rádio, que funciona através de dispositivos que se assemelham a computadores de mergulho, também é uma ferramenta muito requisitada para verificar a profundidade a que os animais mergulham ao longo do tempo. Com a obtenção do perfil de mergulho dos cetáceos, os investigadores são capazes de perceber que tipo de presas os animais estão a escolher.

Em grandes baleias que migram em escalas mais extensas, utilizam a telemetria por satélite, que permite conhecer a  importância dos Açores no ciclo de vida destes animais e no contexto dos ecossistemas do Atlântico Norte. "Se houver qualquer ameaça nos ecossistemas dos Açores, parte do seu ciclo de vida pode ser afectada", pelo que "queremos saber se existem alternativas no Atlântico Norte", frisou Mónica Silva. 
Para além de não existirem muitos grupos de investigação a utilizarem transmissores de satélites, o DOP foi pioneiro na  utilização desta técnica durante a migração dos animais e já obteve bons resultados com esta "ousadia". "A primeira coisa evidente foi que nem todas as espécies têm o mesmo tipo de comportamento e nem todas utilizam os Açores da mesma forma", revelou Mónica Silva, destacando que até agora ninguém conhece os percursos e rotas migratórias dos animais, desde as áreas mais a sul àquelas mais a norte. 
Pela sua localização, os Açores são "um ponto de charneira". Possibilitam o conhecimento dos corredores migratórios a norte e têm ainda potencialidade para dar a conhecer as áreas de migração para sul, uma vez que promovem o cruzamento de animais de ambos os lados do Atlântico, o que até então não se sabia.  A investigadora do DOP destacou que este novo dado pode revolucionar "o conhecimento científico e os modelos de gestão que estão a ser aplicados a estas espécies". 

Fonte: CiênciaHoje, 25-03-2011

http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=48123&op=all




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